GREVE HISTÓRICA CONTRA A VALE

Agencia Vista • 28 de janeiro de 2022

30 ANOS

Texto: Carlos Cruz

Fonte: www.viladeutopia.com.br

 

Em reunião numa tarde de domingo, 2 de abril de 1989, o então sindicalista e deputado federal João Paulo Pires de Vasconcelos, com a experiência de ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de João Monlevade, em reunião com a diretoria do Sindicato Metabase de Itabira, ao saber que os trabalhadores da Vale estavam dispostos a deflagrar uma greve, foi taxativo no aconselhamento:


“Façam uma assembleia em local fechado. E se os trabalhadores aprovarem a greve, fechem todos os portões e não deixem ninguém sair. Comecem os piquetes no próprio local onde a greve for aprovada”, recomendou o parlamentar e sindicalista, com a autoridade de quem liderou históricas greves, que ajudaram a derrubar a ditadura militar, no final da década de 70 do século passado.


A greve foi deflagrada numa segunda-feira, 3 de abril, há exatos 30 anos, depois de ser aprovada em assembleia realizada à noite no ginásio poliesportivo do Valério. Foi a segunda e a maior greve deflagrada dos mineiros da então estatal Companhia Vale do Rio Doce. A primeira greve, sobre a qual há pouco registro, ocorreu em 1946 (leia no final desta reportagem).


A greve de 1989 só terminou cinco dias depois, num sábado (8 de abril). Poderia até ter sido mais uma grave entre tantas que pipocavam no país contra a repressão e o arrocho salarial.


O movimento grevista foi forte principalmente entre os metalúrgicos, uma categoria que sempre foi mais combativa, liderada pelo então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, Luiz Inácio “Lula” da Silva.


Mas a greve dos mineiros de Itabira não foi uma greve qualquer entre tantas justas e necessárias para mostrar a força do trabalhador frente ao mercado que tudo pode – e consegue neste país neoliberal, subserviente ao capital globalizado. “Foi um grito primal do itabirano”, registrou o jornalista Marcelo Procópio.


“O grito já estava sufocando o itabirano há muitos anos. Antes, havia tímidos movimentos, que não eram levados a sério pela comunidade e desprezados burramente pelas autoridades”, escreveu o editor do jornal do jornal O Cometa Itabirano, na edição subsequente à greve.


Antecedentes


Entre esses movimentos espontâneos e sem uma direção política ou sindical, destacaram-se as pichações realizadas pelo ativista José Carlos Gomes em muros da cidade – e que acabou por virar palavra de ordem de muitos itabiranos desempregados. “O meu pai, 30 anos. E eu?”, era o que questionavam essas pichações.


Já naquela época a Vale não era mais a “mãe” que abrigava a juventude ávida de trabalhar nas minas. Virou “madrasta” e assim passou a ser tratada por grande parte da comunidade itabirana, que já não via as suas “benesses” como dádivas maternais.


A pichação foi talvez o primeiro grafite registrado na cidade. Foi uma pichação bem feita, estampando a velha logomarca da CVRD. Se os pais trabalhavam na empresa por 30 anos até se aposentar, esse mesmo emprego já não mais existia para a maioria dos jovens itabiranos. Esse foi o recado que o grafiteiro passou à comunidade itabirana.


A greve ocorreu em uma conjuntura econômica recessiva, de extremo arrocho salarial que aviltava a qualidade de vida do trabalhador.


Além disso, havia também as conquistas sociais e trabalhistas advindas com a Constituição de 1988 – e que não eram autoaplicáveis, sendo necessária a mobilização dos trabalhadores para fazer valer os direitos conquistados.


Para o movimento sindical chegar à greve, um antecedente importante foi a participação do técnico Saulo Queirós Braga. Em decorrência de seu ativismo sindical, ele foi exemplarmente demitido da empresa, em 1984.


Nas assembleias de uma diretoria até então subserviente à empresa, Saulo questionava o poder patronal, o arrocho salarial e denunciava a manipulação que a empresa exercia sobre a então diretoria “pelega” do sindicato. Saulo faleceu meses antes da eleição sindical em 1985, em um trágico acidente automobilístico.


Com a sua morte, assumiu a liderança sindical o seu braço direito, o também técnico Milton Martins Bueno, o Bita, que se elegeu presidente do Sindicato Metabase dois anos antes da greve. Com ele, e demais companheiros, foi constituída a primeira diretoria não “pelega” do Metabase.


“Um homem sério, não viciado na politicagem sindical e com um discurso inteligível para a grande massa de trabalhadores, sem jargões antigos e ultrapassados”, assim o jornalista do jornal O Cometa classificou o emergente líder sindical.


Logo depois da eleição da nova diretoria do Metabase, o sindicato dos Rodoviários também elegeu uma diretoria não “pelega”, com a eleição do sindicalista Wagner Fernandes (já falecido).


Adesões


Os rodoviários também aderiram à greve, que contou ainda com a imprescindível participação dos ferroviários, liderados pelo então sindicalista Fernando Muniz, que anos mais tarde se elegeu vereador, surfando na popularidade adquirida com o movimento paredista.


É histórica a foto dos mineiros e ferroviários impedindo a passagem do trem da Vale, em frente ao estádio do Valério, tendo a tropa de choque da PM, chamada pela mineradora, pronta para descer o cacete nos grevistas.


Nesse episódio, o pior por pouco não ocorria. Foi quando um grupo de grevistas, que fazia piquete na linha férrea, pegou um trilho que estava solto – e quis lançar sobre as pernas dos PMs.


Providencialmente, os grevistas foram persuadidos a não levar a tarefa adiante, o que certamente teria desencadeado uma forte repressão ao movimento paredista.


A greve contou também com apoio da população itabirana, que já não via a mineradora com os olhos filiais de antes. Comerciantes fizeram “vaquinhas” para apoiar os grevistas na alimentação, enquanto estavam reunidos no ginásio poliesportivo. Nunca se comeu tanto pão com salame como nesses cinco dias que abalaram o poder da poderosa Vale.


Conquistas


A greve foi vitoriosa. Os trabalhadores só voltaram ao trabalho depois que o então diretor Francisco Schettino veio a Itabira para negociar diretamente com os grevistas.


O acordo firmado com a direção da Vale garantia a não demissão dos grevistas por um período de 100 dias, assim como foi assegurado o pagamento dos dias parados.


O adicional de turno foi aumentado de 20% para 22%. Quanto aos salários, embora a categoria tenha reivindicado 83% de reajuste (era tempo de inflação galopante), prevaleceu a contraproposta patronal, sendo concedido 60,1%, com ganho real de 39,15%.


Com o encerramento da greve, o fim de semana foi de festa em Itabira, registrou o jornal O Cometa Itabirano, na edição de abril de 1989.


Sindicalista considera a greve histórica e teve avanços que permanecem

A greve na Vale não se repetiu mesmo depois da empresa ser privatizada. Para o presidente do Sindicato Metabase, André Viana Madeira, foi um momento histórico do movimento sindical dos trabalhadores da Vale no país. “Essa greve foi liderada por Milton Bueno, um grande líder sindical que era ouvido e respeitado pela categoria.”


Segundo Viana, o movimento paredista é rememorado todos os dias tanto pelos que participaram, como também por aqueles que por algum motivo não puderam entrar em greve.


“Foi marcante na história de Itabira e dos trabalhadores da Vale. Foi a única greve que parou toda a produção de minério em Itabira desde a criação da empresa, em 1942.”


Para o sindicalista, a greve foi importante não só pelas conquistas econômicas e sociais, mas também por demonstrar o poder da unidade dos trabalhadores. “Os resultados positivos dessa greve refletem até hoje, a exemplo da conquista da jornada de trabalho de seis horas para quem trabalha em turnos de revezamento.”


Essa conquista, nos dias de hoje, segundo as contas do sindicalista, beneficia mais 1,5 mil trabalhadores em um quadro com mais de 3,8 mil empregados da mineradora em Itabira. “É uma conquista que permite um descanso maior para o trabalhador, diminuindo a fadiga. E que aumentou a empregabilidade, uma vez que um equipamento para funcionar 24 horas por dia necessita de quatro operadores.”


André Viana não vê risco de o trabalhador perder essa conquista do turno de revezamento. “É interessante também para a empresa, que tem as minas próximas da cidade. Para acabar com essa conquista, a empresa tem de negociar com a categoria”, diz ele, que frisa a importância de se fortalecer o sindicato, para que essa e outras conquistas sejam asseguradas coletivamente.


Terceirização


Com a reforma trabalhista, que retirou direitos históricos dos trabalhadores, a preocupação do sindicato é com uma possível terceirização de atividades fins, o que antes era proibido. “Se a Vale quiser, pode terceirizar toda a área de produção, precarizando ainda mais as condições de trabalho”, alerta o sindicalista.


Mas ele não vê esse risco como sendo iminente. “A Vale sabe que se fizer isso irá perder o controle de qualidade e colocar em risco a segurança do trabalhador e dos próprios equipamentos, que são caríssimos”, ele acredita.


Para manter as conquistas, André Viana considera importante construir a unidade dos trabalhadores em torno dos sindicatos.


“Querem nos enfraquecer para dominar, mas isso não irá ocorrer”, diz o sindicalista, que aposta na politização do trabalhador para que conheçam e lutem por seus direitos duramente – e historicamente – conquistados.


Demissões


O sindicalista lamenta que a Vale tenha agido com truculência, assim que terminou o período de 100 dias de estabilidade no emprego após a greve de 1989. Findo esse prazo, a empresa demitiu os trabalhadores que exerciam liderança no chamado “chão de fábrica” – e que não gozavam de imunidade sindical.


Esses trabalhadores só foram anistiados em 1994, pelo ex-presidente Itamar Franco (1992/95), quando foi concedido o “perdão” a todos os trabalhadores demitidos no país por participarem de movimentos grevistas. Mas esses anistiados só conseguiram recolocação em alguma estatal, ou em repartição pública federal, no governo da ex-presidente Dilma Rousseff (2011/16).


Em Itabira, a luta dos anistiados foi liderada pelo hoje aposentado Carlinhos Madeira, pai de André Viana, que ainda preside a Associação Regional dos Aposentados e Pensionistas do Sistema Público-Privado (Asprev).


“É uma luta que persiste, pois quem conseguiu voltar ao trabalho reclama do baixo salário e dos locais onde foram readmitidos. Só os anistiados que conseguiram uma relocação no campus da Unifei, em Itabira, não estão insatisfeitos. E muitos morreram antes de retornar ao trabalho”, lamenta.


De acordo com André Viana, a greve será lembrada e celebrada na festa dos trabalhadores, que está sendo preparada para o dia 1º de maio (quarta-feira). Haverá shows e manifestações públicas, na cidade e no clube recreativo do Metabase. “Teremos também palestras e debates abertos à participação da comunidade”, promete.


Primeira greve, em 1946, foi duramente reprimida

A antropóloga itabirana Maria Cecília Minayo, da Fundação Getúlio Vargas, registra em seu livro Homens de Ferro a ocorrência de uma primeira greve dos trabalhadores da Vale, em fins de 1946.


“Os homens revoltados, com seus instrumentos de trabalho transformados em armas de guerra, ameaçaram os chefes, quebraram os alojamentos e as oficinas – e obrigaram os companheiros indecisos a se renderem”, registrou a antropóloga, que prosseguiu:



“A situação chega a tal ponto que a empresa pede um destacamento de 60 soldados de Belo Horizonte parareforçar a polícia local. Apenas sob a mira das baionetas os mineiros capitulam e recomeçam o trabalho. Os ‘cabeças’ da greve são sumariamente demitidos, ninguém dá notícias deles. Se continuam na cidade, se saíram, se vivem ou estão mortos, se têm famílias – ninguém sabe oficialmente, ninguém diz.”


Foi logo após essa greve que a própria Vale incentivou alguns de seus “administradores” a criar a Associação dos Trabalhadores da Extração de Metais Básicos, que depois virou o Sindicato Metabase.


A entidade exerceu por muitos anos o seu papel de amortecer a luta de classes, pelo menos até 1986, quando foi eleita a diretoria liderada pelo técnico Milton Bueno.


Não foi à toa que durante a greve de 1989 o palavrão mais xingado foi “pelego”. Serve para designar todo sindicalista que se coloca ao lado dos patrões contra o trabalhador. Originalmente a palavra pelego designa a manta que é colocada entre o arreio e a montaria, para não ferir o animal.

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